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VOLCANO
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Entender a inovação · Parte II · Do laboratório ao mercado

06 · Medir a maturidade: TRL, CRL e o vale da morte

13 min de leitura

Em síntese

  1. A escala TRL (Technology Readiness Level) mede em nove níveis quão perto uma tecnologia está da operacionalidade real. Nascida na NASA, é hoje a linguagem partilhada de agências de financiamento, programas europeus e investidores deep tech.
  2. O valor da escala está na disciplina da pergunta "demonstrado em que ambiente?": cada nível corresponde a uma evidência de funcionamento em condições progressivamente mais realistas, não a uma opinião de progresso.
  3. A TRL mede só a maturidade técnica. As escalas complementares (CRL para a maturidade comercial, MRL para a de fabricação, IRL para a do investimento) existem porque um projeto pode estar maduro em um eixo e verde nos demais, e os fracassos nascem tipicamente dos eixos não medidos. Os nove degraus da CRL, com a evidência que cada um exige, estão em a escada CRL.
  4. Entre TRL 4 e TRL 7 abre-se o vale da morte do financiamento: os custos crescem em ordens de grandeza enquanto o projeto está demasiado avançado para a pesquisa pública tradicional e demasiado verde para grande parte do capital privado. Os instrumentos que cobrem este troço decidem que tecnologias chegam ao mercado.

Seção 1

Origem e estrutura da escala

A escala TRL nasce na NASA nos anos setenta (a conceção é atribuída a Stan Sadin) e é formalizada na versão de nove níveis por John Mankins no white paper de 1995. O problema que resolve é de comunicação e de decisão: em programas que integram centenas de tecnologias de fornecedores diferentes, são precisos uma linguagem comum para dizer quão pronta está cada uma e um critério para decidir que riscos tecnológicos um programa se pode permitir embarcar. Da NASA a escala difundiu-se para o Departamento de Defesa norte-americano, para a Agência Espacial Europeia e, do programa Horizonte 2020 em diante, para a Comissão Europeia, que a usa para definir o âmbito dos concursos de financiamento; hoje é norma também na due diligence dos investidores deep tech.

Os nove níveis, na formulação corrente adotada pelos programas europeus:

TRLDescrição
1Princípios de base observados
2Formulação do conceito tecnológico
3Prova de conceito experimental
4Tecnologia validada em laboratório
5Tecnologia validada em ambiente relevante
6Tecnologia demonstrada em ambiente relevante
7Demonstração de um protótipo de sistema em ambiente operacional
8Sistema completo e qualificado
9Sistema real provado em ambiente operacional

A lógica da progressão está em duas variáveis que crescem em conjunto: a completude do objeto testado (do princípio físico isolado, ao componente, ao sistema integrado, ao sistema real) e o realismo do ambiente de ensaio (do papel, ao laboratório, ao ambiente relevante que simula as condições operacionais, ao ambiente operacional verdadeiro). A pergunta que atribui o nível é sempre a mesma: o que foi demonstrado, em que ambiente, com que evidência documentada. É uma pergunta sobre o passado verificável, não sobre as intenções, e é isto que faz da escala um instrumento de disciplina: um TRL não se declara, demonstra-se.

Três limiares merecem atenção particular. TRL 3 (prova de conceito): o mecanismo central funcionou com instrumentos reais, de modo reprodutível; antes deste limiar a ideia está verificada apenas no papel. TRL 5-6 (ambiente relevante): o salto do laboratório, onde as condições são controladas, para um ambiente que reproduz as solicitações reais (temperatura, vibrações, interferências, usuários); é estatisticamente o salto onde morrem mais tecnologias, porque o laboratório esconde por construção os problemas de integração e de robustez. TRL 7-8: a qualificação do sistema completo, onde entram certificações, normas e fiabilidade, ou seja, custos altos com conteúdo científico baixo, que as equipes de pesquisa tendem a subestimar.

Seção 2

Uso correto e limites documentados

A escala funciona se for usada para aquilo que mede, e a literatura crítica (a começar pelas avaliações internas das próprias agências que a usam) documentou com precisão onde deixa de funcionar.

O TRL é local a uma aplicação e a um ambiente. Uma tecnologia madura num uso não é madura noutro: um sensor a TRL 9 no automóvel volta a TRL 5-6 se for destinado a um dispositivo médico, porque o ambiente operacional, os requisitos e as certificações mudam. O nível deve ser sempre declarado relativamente à aplicação específica, e pode legitimamente descer quando a aplicação muda.

A escala é ordinal, não cardinal. Os degraus não são equidistantes: em termos de custo e prazo, a passagem de TRL 6 a 8 vale tipicamente muitas vezes a passagem de 2 a 4. Usar o TRL para estimar linearmente o progresso ("estamos em 6 de 9, portanto a dois terços") é o erro aritmético mais comum.

O TRL não mede a dificuldade residual, a integração, nem os outros eixos. Duas tecnologias no mesmo nível podem ter pela frente subidas muito diferentes; um sistema feito de componentes maduros pode ser imaturo enquanto sistema (o TRL mais baixo da cadeia domina, e a integração é ela própria uma tecnologia a amadurecer); e sobretudo a escala nada diz sobre tudo o que não é técnica: mercado, produção, economia. Desta terceira lacuna nascem as escalas complementares.

Seção 3

Os outros termômetros: CRL, MRL, IRL

CRL (Commercial Readiness Level). Formalizada, entre outros, pela agência australiana para as renováveis ARENA (2014) ao observar que as tecnologias energéticas chegavam a TRL 9 e ali ficavam paradas, a escala mede a maturidade comercial: da hipótese de mercado, às primeiras vendas sustentadas por condições especiais, até à competitividade sem apoios e à classe de ativo bancável. A sua razão de ser é a observação de que o risco não acaba com a técnica: muda de natureza, e daí em diante mede-se num eixo próprio (clientes, canais, economia unitária, financiabilidade).

A progressão do CRL lê-se também no próprio produto, que atravessa três versões distintas e estritamente ordenadas do mesmo artefacto. O minimum viable product (MVP, capítulo 07) valida a ideia e não precisa de ser vendável: pode ser gratuito, incompleto, sustentado por processos manuais atrás da fachada de produto; responde a "funciona, e querem-no?". A versão mínima vendável (minimum sellable version) é a primeira que pode cobrar: não perfeita nem completa, mas com os requisitos técnicos e legais mínimos para gerenciar uma transação (pagamentos, faturamento, contas de usuário); responde a "estão dispostos a pagá-lo agora?". O produto mínimo comercializável (MMP, minimum marketable product, formalizado por Denne e Cleland-Huang em 2003) compete no mercado amplo: experiência de utilização cuidada, sem defeitos bloqueantes, pronto para o marketing em escala; responde a "estamos prontos para o vender a todos?". No caminho, as três versões correspondem a F7, ao limiar de F8 e a F9-F10. MVP e MMP assentam em literatura consolidada; a versão mínima vendável é um termo de prática sem fonte canônica, útil precisamente porque nomeia o degrau que separa validar de cobrar.

MRL (Manufacturing Readiness Level). Desenvolvida no âmbito da defesa norte-americana, mede a capacidade de produzir: processos, rendimentos, cadeia de fornecimento, custos industriais, escalabilidade dos volumes. O caso da penicilina no capítulo 01 é a demonstração histórica de que a maturidade de fabrico é um eixo autônomo: a ciência estava feita em 1941, a produção era o problema. Para os projetos de hardware, a distância entre protótipo demonstrado e produção repetível a custos sustentáveis é sistematicamente subestimada.

IRL (Investment Readiness Level). Proposta por Steve Blank, traduz a lógica dos readiness level no percurso de validação do negócio: da formulação das hipóteses sobre o modelo (problema, cliente, canal, receitas), à sua verificação progressiva com evidência recolhida no terreno, até às métricas que demonstram um modelo repetível e escalável. É a ponte entre este capítulo e o seguinte: o IRL aplica ao risco de mercado a mesma disciplina que o TRL aplica ao risco técnico, isto é, progresso declarado apenas contra evidência.

O ponto de método comum aos quatro termômetros: a maturidade é multidimensional, os fracassos nascem tipicamente no eixo não medido, e um projeto deve por isso ser lido como um vetor (TRL, CRL ou IRL, MRL) e não como um número só. Um TRL alto com um CRL parado é uma tecnologia à procura de mercado; um CRL que corre sobre um TRL verde é uma promessa comercial sem produto; ambas as configurações são diagnósticos, e o vetor torna-as visíveis.

Seção 4

O vale da morte

Entre TRL 4 e TRL 7 abre-se o troço a que a literatura sobre o financiamento da inovação chama vale da morte, e a sua existência decorre de uma tesoura estrutural entre custos e capital disponível.

Do lado dos custos: a progressão ao longo da escala é exponencial, não linear. A pesquisa até TRL 3-4 faz-se com equipes pequenas e instrumentação de laboratório; a validação em ambiente relevante e os protótipos de sistema (TRL 5-7) exigem engenharia completa, instalações piloto, campanhas de ensaio, certificações: para muitas tecnologias físicas, uma ordem de grandeza a mais, ou duas.

Do lado do capital: precisamente onde os custos aceleram, a oferta de financiamento rarefaz-se. A pesquisa pública tradicional (universidades, institutos, bolsas de pesquisa) financia bem os níveis baixos, onde se produz conhecimento publicável, e considera os níveis intermédios "desenvolvimento industrial" fora do seu mandato. O capital privado raciocina de forma especular: a TRL 4-5 o risco técnico residual ainda é alto, os prazos de retorno longos, e a evidência comercial (que, como se viu, vive noutro eixo) quase ausente; grande parte dos investidores prefere entrar quando o protótipo já demonstrou o sistema, isto é, depois do vale. O resultado é um troço do percurso em que a necessidade é máxima e a oferta mínima, e em que morrem tecnologias cientificamente válidas por pura descontinuidade do financiamento: não uma falha da tecnologia, mas uma falha do mercado de capitais, e é a justificação econômica padrão dos instrumentos públicos e para-públicos (subvenções ao desenvolvimento experimental, incentivos fiscais à I&D, contratação pré-comercial) que o capítulo 09 tratará em detalhe: existem para cobrir o troço que nem a pesquisa pública nem o capital privado cobrem espontaneamente.

Para quem concebe um percurso de desenvolvimento, o vale não é uma surpresa mas um dado de planejamento: o plano financeiro de um projeto deep tech julga-se antes de mais pela forma como atravessa TRL 4-7, com que fontes, em quanto tempo, e com que evidências produzidas em cada passo para desbloquear a fonte seguinte.

Seção 5

Um exemplo guiado: a mesma tecnologia, três termômetros

Considere-se, a título ilustrativo, um sensor para a agricultura de precisão baseado num princípio de medição novo. TRL 1-2: o princípio físico é observado e o conceito formulado; papel e cálculos. TRL 3: a bancada de laboratório mede a grandeza-alvo de modo reprodutível. TRL 4: o protótipo de bancada integra medição, eletrônica e processamento, em laboratório. TRL 5-6: o dispositivo, com engenharia próxima da forma final, opera em estufa e depois no campo durante uma estação, com pó, humidade, amplitudes térmicas e transmissão de dados real; é o salto em que emergem os problemas que o laboratório não mostra. TRL 7-8: a pré-série qualificada (certificações rádio e ambientais, fiabilidade em lotes) opera em explorações agrícolas piloto. TRL 9: o produto opera em condições comerciais reais.

O vetor completo conta, porém, outra história em paralelo. A TRL 6 o CRL pode estar ainda ao nível das hipóteses (quem paga: a exploração agrícola, o agrupamento, a seguradora? por que valor mensurável: água poupada, rendimento da cultura, certificação?) e o MRL pode revelar que o processo de calibração do sensor, artesanal no protótipo, não escala para os volumes. A leitura correta do projeto não é "TRL 6 de 9" mas o vetor inteiro, com o eixo mais atrasado a ditar a próxima prioridade de validação: que é exatamente o modo como o capítulo 07 formulará a gestão do risco.

No método Volcano

A escala TRL é a ossatura declarada da macrofase de P&D do caminho: as fases de F3 (ideação, TRL 1-2) a F7 (MVP, TRL 7-8) correm sobre o termômetro técnico, e a pirâmide TRL é o instrumento com que o método comunica a maturidade de cada projeto da carteira, cada um publicado com o seu nível real e o seu estado. O duplo termômetro da seção 3 está estruturalmente incorporado: à macrofase de comercialização (F8-F13) o método atribui o CRL, reconhecendo que a partir do MVP o risco muda de eixo e se mede por conta própria. O vale da morte da seção 4 é o troço que o modelo de financiamento cobre deliberadamente: a janela típica do Tax Lease (o regime espanhol de financiamento fiscal da I&D) vai de F3 a F7, isto é, de TRL 2 a TRL 7, declarada como "o troço que nenhuma outra fonte cobre", com os fundos públicos a fundo perdido a entrarem em regra a partir de TRL 5-6; a arquitetura das fontes por nível, representada no calendário do capital do modelo, é a resposta projetada à tesoura descrita neste capítulo. Por fim, o princípio "um TRL não se declara, demonstra-se" tem no método uma forma institucional: a validação independente através de certificação acreditada pela ENAC (a entidade espanhola de acreditação) e do Informe Motivado Vinculante (o parecer vinculativo da administração espanhola sobre a natureza das atividades de I&D), que é a terceira das seis alavancas de redução do risco e transforma a autoavaliação técnica em evidência verificada por terceiros.

Leituras

Para aprofundar

  • J.C. Mankins, "Technology Readiness Levels: A White Paper" (NASA, 1995): duas páginas, a fonte original das definições.
  • Comissão Europeia, definições TRL nos documentos de programa Horizonte (General Annexes): a formulação oficial usada nos concursos europeus, referência prática para quem escreve propostas.
  • ARENA, Commercial Readiness Index for Renewable Energy Sectors (2014): a formalização do CRL e a lógica do duplo eixo técnico-comercial.
  • S. Blank, "It's Time to Play Moneyball: The Investment Readiness Level" (2013, no blogue do autor): a proposta do IRL e a ligação com o customer development.

Perguntas frequentes

Perguntas frequentes

Um TRL 9 significa que o produto está pronto para o mercado?

Não: significa que a tecnologia operou em ambiente real. O mercado vive no eixo comercial (CRL): clientes que pagam, canais, economia unitária, competitividade sem apoios. A história das tecnologias que chegaram a TRL 9 e nunca descolaram comercialmente é longa, e é a razão pela qual o CRL existe. A leitura correta é sempre o vetor, nunca o número técnico isolado.

Quem certifica o TRL de um projeto?

Em si mesmo, ninguém: a escala é uma linguagem, não um registro profissional, e o nível declarado vale o que valer a evidência que o sustenta. Na prática a verificação ocorre por vias indiretas: as agências de financiamento avaliam a evidência nas propostas, os investidores examinam-na em due diligence, e em alguns ordenamentos existem certificações independentes das atividades de P&D (em Espanha, a certificação por entidades acreditadas pela ENAC e o Informe Motivado Vinculante) que dão forma terceira e oponível à avaliação. A pergunta a fazer perante um TRL declarado é sempre: demonstrado onde, quando, documentado como.

Se o risco desce a cada nível, porque escasseia o capital precisamente a meio da escala?

Porque os custos sobem mais depressa do que o risco desce, e os perfis dos financiadores não cobrem o troço: a pesquisa pública para onde acaba o conhecimento publicável, o capital privado prefere entrar quando o sistema está demonstrado. A necessidade máxima encontra a oferta mínima entre TRL 4 e 7: é uma descontinuidade do mercado de capitais, não da tecnologia, e é o troço que os instrumentos públicos e fiscais existem para cobrir.

O TRL de uma tecnologia pode descer?

Sim, em dois casos legítimos: quando muda a aplicação ou o ambiente de destino (a maturidade é local: o sensor automóvel levado para o setor médico recua) e quando a evidência envelhece (um protótipo demonstrado há anos, sobre componentes já indisponíveis, deixa de sustentar o nível). Um TRL é uma fotografia com data e contexto; reutilizar a fotografia fora do contexto é declarar maturidade que não existe.

We choose to go to the Moon in this decade and do the other things, not because they are easy, but because they are hard.
John F. Kennedy, 1962
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