Entender a inovação · Parte II · Do laboratório ao mercado
08 · Estratégia e carteira de inovação
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Em síntese
- Os projetos de inovação têm desfechos incertos por natureza: a racionalidade não vive ao nível do projeto individual mas da carteira, onde a estatística trabalha a favor de quem tem tentativas suficientes, disciplina de seleção e coragem de paragem.
- Uma carteira julga-se em três dimensões: o valor esperado, o equilíbrio (entre horizontes temporais, níveis de risco, áreas tecnológicas) e o alinhamento com a estratégia; maximizar a primeira ignorando as outras duas produz carteiras frágeis ou incoerentes.
- A evidência empírica indica o erro dominante na prática: projetos a mais para os recursos disponíveis. A diluição alonga todos os prazos, baixa a qualidade de tudo, e gera o projeto zombie, nem interrompido nem financiado adequadamente.
- O roadmapping liga problemas, tecnologias e prazos num horizonte comum; a technology intelligence (scouting, análise de patentes, monitorização científica) alimenta a carteira e vigia as ameaças.
- Os conceitos interrompidos não são resíduos: documentados e protegidos, são opções que circunstâncias futuras podem reabrir. O patrimônio de conceitos é um ativo da carteira, com um valor que a teoria das opções reais torna explícito.
Seção 1
Por que razão a carteira, e não o projeto, é a unidade de gestão
Os capítulos anteriores construíram a disciplina do projeto individual: validar o problema, comprar informação ao custo mínimo, comprometer capital contra evidência. Mas mesmo o projeto perfeitamente gerido continua a ser uma aposta de desfecho incerto: a gestão do risco reduz a probabilidade de fracasso, não a anula, e para as inovações mais ambiciosas a probabilidade residual permanece alta por construção. A consequência lógica: uma organização que vive de inovação não pode confiar o seu destino a um desfecho isolado. A racionalidade desloca-se de nível, do projeto para a carteira, onde três propriedades se tornam gerenciáveis.
A primeira é estatística: com tentativas independentes suficientes, a variância agregada desce e os êxitos, por mais individualmente imprevisíveis que sejam, tornam-se coletivamente esperados; o capítulo 10 mostrará que na distribuição dos retornos da inovação, fortemente assimétrica, o número de tentativas não é um pormenor mas a condição de acesso às caudas onde vive o valor. A segunda é informativa: os projetos de uma carteira partilham aprendizagem (uma tecnologia validada num projeto serve ao seguinte, um canal aberto reutiliza-se), e isto transforma parte do custo dos fracassos em investimento reutilizável. A terceira é alocativa: só ao nível da carteira existe a pergunta "este euro rende mais aqui ou noutro lado?", que é a pergunta que disciplina tanto as entradas como as paragens.
A gestão de carteira da I&D tem uma literatura empírica consolidada (Cooper, Edgett e Kleinschmidt, que são as suas referências principais), e o seu diagnóstico recorrente merece abrir o capítulo porque descreve o erro mais difundido: a maior parte das organizações tem projetos ativos a mais em relação aos recursos. As causas são estruturais (abrir um projeto é gratificante e visível, interrompê-lo é doloroso e contestado; os critérios de entrada são mais fracos do que se declara; ninguém detém o inventário completo) e o efeito é a diluição: cada projeto avança com menos recursos do que os necessários, todos os prazos se alongam, a qualidade do trabalho desce por toda a parte, e as janelas temporais do capítulo 05 fecham-se enquanto os projetos se põem em fila uns atrás dos outros. A forma crônica da diluição é o projeto zombie: financiado de menos para avançar, examinado de menos para ser interrompido, consome indefinidamente o recurso mais escasso (a atenção das melhores pessoas) devolvendo opções que ninguém exercerá. Uma carteira julga-se também pelo número de zombies que tolera.
Seção 2
O equilíbrio: horizontes, risco, composição
Se a carteira é a unidade de gestão, a sua primeira propriedade projetável é a composição. O framework mais difundido para raciocinar sobre ela é o dos três horizontes (Baghai, Coley e White, The Alchemy of Growth, 1999): o horizonte 1 reúne a extensão e a defesa do negócio atual (para uma carteira de inovação: os projetos incrementais sobre linhas existentes); o horizonte 2, as oportunidades emergentes em construção (os projetos que abrem linhas novas sobre capacidades adjacentes); o horizonte 3, as opções sobre o futuro (explorações de longo prazo, tecnologias verdes, mercados ainda inexistentes). O ponto do framework não são os rótulos mas a obrigação que impõe: tornar explícita a distribuição do capital e da atenção entre os três, porque a distribuição implícita, deixada às dinâmicas espontâneas, converge sistematicamente para o horizonte 1 (que tem os clientes, os números e a urgência do seu lado) e esfomeia os outros dois, reproduzindo ao nível da carteira o desequilíbrio exploration-exploitation que o capítulo 16 tratará ao nível organizativo. As proporções certas não são universais: a regra citada dos 70-20-10 é uma anedota de gestão, não um resultado empírico, e a repartição correta depende da velocidade do setor, da posição competitiva e da fase da organização. O que é universal é o requisito de explicitação: a repartição deve ser uma escolha declarada e revista, não um resíduo contabilístico.
A par dos horizontes, o equilíbrio clássico cruza risco e valor esperado: a matriz que daí resulta distingue as pérolas (valor alto, probabilidade alta), as ostras (valor alto, probabilidade baixa: as apostas que justificam a carteira), o pão de cada dia (valor baixo, probabilidade alta: útil, mas uma carteira cheia dele é uma renda disfarçada de inovação) e os elefantes brancos (valor baixo, probabilidade baixa: candidatos à paragem que sobrevivem por custos afundados e patrocinadores dedicados). Também aqui a função da matriz é diagnóstica antes de ser prescritiva: obriga a ver a forma da carteira, e as formas patológicas (tudo pão de cada dia, ou uma só grande aposta que concentra o risco) só são visíveis do alto.
Seção 3
Roadmapping e technology intelligence: a dimensão tempo e a dimensão exterior
O roadmapping. A carteira vive no tempo, e o instrumento que organiza a sua dimensão temporal é a technology roadmap: uma representação em horizonte plurianual que alinha três camadas (os problemas e os mercados em evolução; os produtos e as soluções planejados; as tecnologias e as capacidades necessárias) e torna visíveis as dependências entre elas. A pergunta a que a roadmap responde não é "o que faremos" no sentido de compromisso rígido, mas "o que tem de ser verdade, e quando, para que aquilo que queremos fazer seja possível": que tecnologias devem amadurecer até que data, que competências devem ser adquiridas antes de que projeto, que janelas de mercado impõem que prazos a montante. Em carteiras deep tech, onde os prazos de maturação tecnológica (capítulo 06) são longos e as janelas de adoção (capítulo 05) não esperam, a roadmap é o instrumento que impede de descobrir as incompatibilidades temporais quando já é tarde para remediar.
A technology intelligence. A carteira precisa de olhos voltados para fora, para duas funções simétricas: alimentar (identificar tecnologias, problemas e parceiros que merecem entrar) e vigiar (avistar as ameaças: a tecnologia substituta que sobe a sua curva em S, o concorrente que se move, o design dominante que se aproxima). Os instrumentos são sistematizáveis: a monitorização da literatura científica e das conferências para as tecnologias a montante; o scouting ativo sobre startups, laboratórios e redes de peritos; e a análise de patentes, que merece uma nota por ser a fonte mais subutilizada. As patentes são informação estratégica pública: quem deposita o quê, em que classes tecnológicas, com que aceleração, revela as direções de investimento dos concorrentes anos antes dos produtos; as citações entre patentes mapeiam as dependências tecnológicas; os vazios nas classes concorridas assinalam espaços. O capítulo 12 tratará as patentes como instrumento de proteção; aqui devem ser registradas como instrumento de leitura da paisagem, utilizável mesmo por quem não patenteia.
Seção 4
Entradas, saídas e o valor daquilo que se interrompe
Os critérios de entrada e de saída são o sistema imunitário da carteira, e a sua assimetria prática deve ser corrigida com a assimetria oposta no desenho: uma vez que abrir é fácil e fechar é difícil, os critérios de entrada devem ser exigentes e os de saída tão automáticos quanto possível.
A entrada disciplinada exige que o projeto candidato supere três exames: o mérito absoluto (o problema validado segundo o capítulo 02, com uma via de solução plausível), o mérito relativo (rende mais do que as alternativas em fila, incluindo a alternativa de reforçar projetos existentes: cada entrada compete com tudo), e a compatibilidade (as competências necessárias existem ou podem ser obtidas; o equilíbrio da carteira permite-o; a roadmap situa-o). O terceiro exame é o que as organizações saltam com mais frequência, e é o mais barato de fazer.
A saída disciplinada apoia-se nos gates do capítulo 07 (critérios declarados antes, evidência examinada por quem não tem custos afundados) com o acréscimo da perspetiva de carteira: a pergunta no gate não é apenas "este projeto merece o próximo euro?" mas "este euro rende mais aqui ou no melhor projeto em fila?". É a pergunta que os custos afundados e os patrocinadores não querem ouvir, e é a razão pela qual deve ser institucionalizada: revisões periódicas de carteira com o inventário completo à frente, não decisões projeto a projeto em salas separadas.
O valor daquilo que se interrompe. Um projeto interrompido com método não devolve zero. Devolve aprendizagem (a hipótese desmentida que evitará o mesmo erro noutro lado), por vezes tecnologia reutilizável, e sobretudo um conceito documentado: o problema analisado, o mecanismo verificado até onde foi levado, os riscos nomeados, a eventual propriedade intelectual. A teoria das opções reais dá a este resíduo o nome certo: uma opção, o direito sem obrigação de reabrir quando as circunstâncias mudam; e as circunstâncias mudam, porque as tecnologias habilitantes amadurecem (o custo que tornava o conceito antieconômico desce ao longo da sua curva), os mercados movem-se, as normas abrem espaços. O caso histórico mais citado é o vidro Chemcor da Corning: desenvolvido nos anos sessenta, sem mercado à época, arquivado com a sua documentação, e reaberto mais de quarenta anos depois quando a telefonia móvel criou a procura de um vidro fino e resistente a riscos; comercializado como Gorilla Glass, tornou-se um dos principais produtos da empresa. A condição para que a opção exista é a disciplina de arquivo: o conceito interrompido deve ser documentado como se tivesse de ser reaberto por outros, a propriedade intelectual mantida onde o custo o justifique, e o inventário dos conceitos revisto periodicamente à luz daquilo que entretanto amadureceu. Uma carteira madura tem, por isso, dois inventários: os projetos ativos e as opções em espera, e o segundo é um ativo patrimonial, não um cemitério.
No método Volcano
O capítulo dá a teoria da carteira: 61 projetos próprios, cada um publicado com o seu estado e o seu TRL, geridos explicitamente como carteira e não como soma de iniciativas. Os critérios de entrada da seção 4 correspondem aos filtros declarados do método: o problema verificado e de alto impacto (mérito absoluto), e o critério de compatibilidade na sua forma mais nítida ("se um problema exige uma disciplina que não temos nem sabemos obter, esse projeto não se abre"). As paragens seguem um protocolo público, as quatro perguntas do risco aplicadas sempre pela mesma ordem mais a janela de decisão, isto é, o automatismo de saída que a seção 4 recomenda contra a discricionariedade dos patrocinadores. O patrimônio de conceitos é a rubrica a que o modelo chama explicitamente assim ("patrimonio de conceptos"), com a valorização indicativa da carteira declarada como ativo que precede cada nova venture: é o inventário das opções da seção 4, tornado possível pela estrutura de propriedade intelectual (capítulo 12) que mantém a PI dos projetos interrompidos nas mãos dos titulares, reutilizável em iniciativas posteriores. O equilíbrio da seção 2 lê-se na composição setorial declarada (energia, mobilidade, agritech, healthtech, economia circular, digital industrial) apoiada no núcleo comum de competências; a escolha de problemas de alto impacto com soluções, se possível, disruptivas coloca deliberadamente o centro de gravidade da carteira nas ostras da matriz, com a redução do risco por fases (capítulos 06, 07 e 09) como mecanismo que torna sustentável essa colocação.
Leituras
Para aprofundar
- R.G. Cooper, S.J. Edgett e E.J. Kleinschmidt, Portfolio Management for New Products (2.ª edição, 2001): a referência empírica da disciplina, com o diagnóstico dos projetos a mais e os métodos de equilíbrio.
- M. Baghai, S. Coley e D. White, The Alchemy of Growth (1999): a formulação original dos três horizontes.
- R. Phaal, C. Farrukh e D. Probert, "Technology Roadmapping: A Planning Framework for Evolution and Revolution" (Technological Forecasting and Social Change, 2004): o quadro metodológico do roadmapping na escola de Cambridge.
- R.G. McGrath, "Falling Forward: Real Options Reasoning and Entrepreneurial Failure" (Academy of Management Review, 1999): o raciocínio por opções reais aplicado aos projetos interrompidos, fundamento teórico do valor do patrimônio de conceitos.
Perguntas frequentes
Perguntas frequentes
Já investimos muito num projeto: interrompê-lo agora não desperdiça o investimento?
O investimento passado está gasto de qualquer modo, decida-se o que se decidir: a única pergunta racional diz respeito ao próximo euro, e a se ele rende mais neste projeto ou no melhor em fila. O que o projeto produziu (aprendizagem, tecnologia, conceito documentado, PI) fica adquirido mesmo interrompendo-o, e é precisamente a disciplina de documentação que transforma a paragem de perda em opção. Continuar para não "desperdiçar" o passado é a definição operacional do erro dos custos afundados.
Quantos projetos são demasiados?
Quando a pergunta se torna necessária, a resposta é quase sempre: os atuais. O sinal não é um número absoluto mas os sintomas da diluição: prazos que se alongam por toda a parte, pessoas-chave fragmentadas por muitas frentes, projetos que avançam aos solavancos entre longas esperas, zombies que ninguém financia nem interrompe. O teste prático: se os recursos libertados ao interromper o pior quartil acelerassem visivelmente o resto, a carteira estava sobrelotada; a evidência empírica diz que este teste, quando é feito, o confirma quase sempre.
A repartição 70-20-10 entre os três horizontes é a regra certa?
É uma anedota útil como lembrete, não um resultado empírico: a repartição correta depende da velocidade do setor, da posição competitiva e do estádio da organização, e para um operador cuja missão é a exploração (como um venture builder) o centro de gravidade situa-se estruturalmente mais à frente. A regra verdadeira é outra: a repartição deve ser explícita, decidida e revista, porque a implícita converge sempre para o horizonte curto.
Que sentido faz conservar conceitos que decidimos não desenvolver?
São opções, e as opções têm valor porque as circunstâncias mudam: tecnologias habilitantes que descem de custo, mercados que se abrem, normas que criam procura. O caso Corning (um vidro dos anos sessenta tornado Gorilla Glass quarenta anos depois) mostra a escala que este valor pode atingir. As condições para que o valor exista são três: documentação feita para ser reaberta por outros, propriedade intelectual mantida onde o custo o justifique, e revisão periódica do inventário à luz daquilo que entretanto amadureceu.
John F. Kennedy, 1962